Só dormiu depois que os olhos estavam muito inchados de tanto chorar. Era um choro amargo, parecia que não terminaria nunca. Os olhos ardiam, estava cansada, mas não conseguia parar, era um dor insuportável. Um vazio tão cheio. Na escuridão tudo parecia piorar, o medo e a insegurança se tornavam monstros terríveis, piores dos que a assustavam na infância. A luz era ainda mais desconcertante, mostrava toda sua fraqueza e sensibilidade inúteis. Pensava em tudo, absolutamente tudo. Era um turbilhão. Nada fazia sentido, não entendia o motivo da existência. Tudo parecia tão raso, vazio, inóspito. Finalmente tinha chegado o inverno, sempre esperou ansiosa por esta estação, mas nem isso a acalmou. A chuva lá fora era menor que seu choro, e o frio bem mais quente que seu coração. Amanheceu, o despertador tocou, os olhos ainda um pouco inchados. Tomou banho e saiu. Nada mudaria. Era só mais um dia.
Esse minuano que passou por aqui essa semana levou com ele um grande exemplo de coragem, dignidade, determinação, amor, amizade e respeito. José Remígio Serafini, 79 anos muito bem vividos. Dono de um bom humor contagiante, sempre soube cultivar as muitas amizades que constituiu por todos os lugares que passou. Grande amigo e companheiro político, sabia respeitar as diferentes opiniões, e defender a sua – era brizolista, usava lenço branco.
Dava valor às coisas simples da vida, como tomar seu licorzinho antes do almoço assistindo ao noticiário do meio dia, churrasquear aos domingos com toda a família reunida, ou simplesmente levantar as 6 da manhã para matear com a Dona Neta – com quem compartilhou 58 anos de amor, amizade respeito e consideração, enfrentando muitas lutas, sonhando junto e obtendo muitas vitórias – sentava-se ao lado do fogão à lenha, cruzava as pernas e servia o mate quente.
Faceiro e festeiro, sempre pronto pra contar uma história, de algum de seus muitos acampamentos pampa a fora, ou simplesmente comentar a vida política do país, ou dar conselhos. Brincava que tinha uma neta comunista, outra que ia ganhar um carro, e a mais nova, a “zóio branco do vô”. Agora se foi.
Depois de um derrame no dia 21 de maio deste ano, passou a ficar mais no hospital que em casa, teve um final triste, não pode terminar seus preciosos dias comendo carne e tomando cerveja como gostaria...
Existe um ditado popular que diz: “Deus escreve certo por linhas tortas”, há essas alturas já não sei nada sobre Deus, escritas, linhas, tortas ou retas que sejam. Só sei que Seu Serafin, já não está entre nós e, deixará muita saudade. Mas, acima de tudo, um grande exemplo.
- Te amo e te respeito pra sempre, meu avô!
“é sempre mais difícil dizer adeus, quando não há nada mais pra se dizer”.
domingo, 24 de agosto de 2008
"mas to afim de ficar sinceramente embriago de sinceridade e mais alguns alucinógenos amorosos que existem aqui no meu boteco particular chamado coração" (Lucy Indasky)
Caminhava sem rumo. Olhava as vitrines, nada a atraía muito. Pensava na futilidade da vida, ou na importância. Não tinha exatamente certeza quanto a isso. Viu de longe, aquela guria, fazia muito tempo que não a via, quase não reconheceu. Quando foi chegando mais perto teve certeza, “era ela!”. Estava mais bonita, cabelos curtos e tingidos, piercings, tatuagens; havia mudado bastante. Quem diria... - Oi, tudo bem? - Oi, tudo bem?Continuou sem rumo, não importava nem pra uma nem pra outra a resposta que viria. É sempre assim, nunca importa.