sexta-feira, 8 de maio de 2009

Ela ficou ali, jogada (ou caída) em um canto escuro, úmido e sujo. Os cachos castanhos cobrindo-lhe a pele branca, de bochechas rosadas e olhos verdes, agora vermelhos, de tanto chorar.

Não sabia se chorava de medo, vergonha, dor ou pudor. Tentava engolir o choro, quando conseguia, por um instante, voltava-lhe à memória o recente ocorrido que, aos 13 anos, lhe marcaria o resto da vida, se restasse.

Ele surgiu quando ela voltava às 21h, de uma peça em cartaz no teatro próximo à sua casa. Viu aquele senhor, tinha idade para ser seu pai. Não deu importância. Seguiu.

Jamais esqueceria os cabelos escuros com cachos pequenos, a testa muito expressiva, o furo de um extinto brinco na orelha esquerda, o nariz meio achatado e os lábios muito finos. Porém, o que mais lhe causava repulsa ao lembrar eram as mãos. Ah! As mãos! Afoitas, sem nenhum pudor, ou piedade rasgaram-lhe o vestido, marcaram-lhe o corpo todo e feriram a alma.

Os olhos sobre ela, as palavras nojentas muito próximas ao seu ouvido e, as mãos, lembrava exatamente da textura – eram ásperas – frias.

Os gritos lhe foram abafados, era impossível se defender. Até tentou, em vão. Os braços fracos batiam no homem corpulento sem surtir nenhum efeito, pelo contrário, ele parecia apreciar o terror nos olhos (infantis) dela.

Penetrou-lhe, sem dó, receio, compaixão, ou consciência. Em momento algum lhe passou pela mente, que as cicatrizes seriam irreversíveis na vida daquela pequena garota. Cada vez mais rápido, impetuoso, viril, excitado. Gozou.

Levantou e saiu.

Ela ficou ali, jogada (ou caída) em um canto escuro, úmido e sujo. Vendo ir embora o homem que lhe marcara para toda a vida e, tinha idade para ser seu pai.

"Estão todos satisfeitos com o sucesso do desastre"

Renato Russo

domingo, 3 de maio de 2009

Só dormiu depois que os olhos estavam muito inchados de tanto chorar.
Era um choro amargo, parecia que não terminaria nunca. Os olhos ardiam, estava cansada, mas não conseguia parar, era um dor insuportável. Um vazio tão cheio. Na escuridão tudo parecia piorar, o medo e a insegurança se tornavam monstros terríveis, piores dos que a assustavam na infância.
A luz era ainda mais desconcertante, mostrava toda sua fraqueza e sensibilidade inúteis. Pensava em tudo, absolutamente tudo. Era um turbilhão. Nada fazia sentido, não entendia o motivo da existência. Tudo parecia tão raso, vazio, inóspito.
Finalmente tinha chegado o inverno, sempre esperou ansiosa por esta estação, mas nem isso a acalmou. A chuva lá fora era menor que seu choro, e o frio bem mais quente que seu coração.
Amanheceu, o despertador tocou, os olhos ainda um pouco inchados. Tomou banho e saiu. Nada mudaria. Era só mais um dia.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

"Salve, Salve, a Santa Igreja!"


Frederico Westphallen/RS

"O jovem rebelde e criativo
questiona e desobedece o poder,
daí encontra com Jesus
e à verdade cristã vai obedecer.
Vai se foder!

O homem consciente dos seus direitos
com malicia sabe se conduzir bem
pois esperta é a Santa Igreja
Que graças aos ingênuos sabe viver muito bem!

Salve! Salve!
A Santa Igreja!"

>>Mercenárias<<

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

"O verão acabou, cedo de mais..."

Esse minuano que passou por aqui essa semana levou com ele um grande exemplo de coragem, dignidade, determinação, amor, amizade e respeito. José Remígio Serafini, 79 anos muito bem vividos. Dono de um bom humor contagiante, sempre soube cultivar as muitas amizades que constituiu por todos os lugares que passou. Grande amigo e companheiro político, sabia respeitar as diferentes opiniões, e defender a sua – era brizolista, usava lenço branco.


Dava valor às coisas simples da vida, como tomar seu licorzinho antes do almoço assistindo ao noticiário do meio dia, churrasquear aos domingos com toda a família reunida, ou simplesmente levantar as 6 da manhã para matear com a Dona Neta – com quem compartilhou 58 anos de amor, amizade respeito e consideração, enfrentando muitas lutas, sonhando junto e obtendo muitas vitórias – sentava-se ao lado do fogão à lenha, cruzava as pernas e servia o mate quente.


Faceiro e festeiro, sempre pronto pra contar uma história, de algum de seus muitos acampamentos pampa a fora, ou simplesmente comentar a vida política do país, ou dar conselhos. Brincava que tinha uma neta comunista, outra que ia ganhar um carro, e a mais nova, a “zóio branco do vô”. Agora se foi.


Depois de um derrame no dia 21 de maio deste ano, passou a ficar mais no hospital que em casa, teve um final triste, não pode terminar seus preciosos dias comendo carne e tomando cerveja como gostaria...


Existe um ditado popular que diz: “Deus escreve certo por linhas tortas”, há essas alturas já não sei nada sobre Deus, escritas, linhas, tortas ou retas que sejam. Só sei que Seu Serafin, já não está entre nós e, deixará muita saudade. Mas, acima de tudo, um grande exemplo.


- Te amo e te respeito pra sempre, meu avô!



“é sempre mais difícil dizer adeus, quando não há nada mais pra se dizer”.